O balanço
As tardes eram quentes.
Muito quentes.
Era Cachoeiro de Itapemirim nos anos 90, e talvez o calor daquela época tenha ficado maior na minha memória do que realmente era. Mas é assim que me lembro: o sol forte, o chão quente e a terra espalhada por todos os lugares.
O chão era de terra. Nem sempre uma terra bem batida. Quando alguém passava, levantava poeira. E a poeira parecia morar ali conosco.
Estava nos móveis.
Nas roupas.
Nos cabelos.
Na pele.
A casa da minha avó parecia ter uma camada fina daquela terra sobre tudo, como se o próprio lugar deixasse sua marca em quem vivia ali.
Eu e meus primos encontrávamos diversão em coisas que hoje parecem pequenas. Em um terreno limpo, corríamos nossas corridas de tampinhas. Era uma brincadeira simples, mas naquele momento não havia nada de simples nela. Havia competição, torcida, estratégia. Cada tampinha avançando pela terra parecia ter importância.
Mais adiante havia outro terreno, diferente daquele.
O mato era alto.
Meus tios costumavam ir para lá com seus cães velhos para caçar pequenos roedores, alguns deles preás. Eu sabia que aquele terreno existia, mas para mim ele também tinha algo de misterioso. Era uma fronteira entre o lugar onde brincávamos e um mundo um pouco mais selvagem, que pertencia mais aos adultos.
Debaixo de um barracão velho, minha avó criava galinhas.
Havia muitos pintinhos.
Eles andavam de um lado para outro, pequenos, rápidos, sempre parecendo estar procurando alguma coisa. Aquela cena fazia parte da paisagem tanto quanto a poeira e o calor.
Mas nem sempre eu queria brincar.
Às vezes eu simplesmente me afastava.
Na frente da casa da minha avó havia uma castanheira. E presa a ela havia um balanço de corda simples.
Era ali que eu gostava de ficar.
O terreno era inclinado, e talvez por isso o balanço alcançasse uma altura que fazia tudo parecer maior. Eu me balançava cada vez mais alto.
Para frente.
Para trás.
Para frente.
Para trás.
E, quando subia, conseguia enxergar longe.
A casa da minha avó ficava em um morro. Dali era possível ver boa parte do bairro. Mais distante estava o aeroporto. E, ainda mais longe, quase no limite daquilo que os meus olhos conseguiam alcançar, estava o cemitério público.
Eu era criança.
Não deveria estar pensando na morte.
Mas eu olhava para aquele cemitério.
E havia alguma coisa nele que me atraía.
Não era exatamente medo.
Era curiosidade.
Eu ficava ali, balançando, olhando aquela paisagem e pensando na vida. Pensando nas coisas que ainda faria. Nas coisas que ainda conheceria. Sem saber exatamente como seria meu futuro, eu tentava imaginá-lo.
E, de algum modo estranho, aquele cemitério parecia fazer parte dessa imaginação.
Era como se, naquele balanço, eu conseguisse enxergar uma vida inteira.
Eu ainda estava no começo.
Havia tantas coisas que eu não conhecia.
Tantas pessoas que ainda encontraria.
Lugares onde ainda pisaria.
Dias que ainda viveria.
Mas, ao longe, havia também aquele lugar silencioso que parecia dizer que tudo aquilo um dia teria um fim.
Eu não sabia explicar isso naquela época.
Talvez nem hoje saiba.
Eu apenas balançava.
O vento passava pelo meu rosto.
O calor continuava ali.
As folhas da castanheira se movimentavam.
Lá embaixo estavam as galinhas, os pintinhos, a terra, a poeira, meus primos, as tampinhas e os terrenos de mato alto.
E eu estava ali, suspenso entre o chão e o céu, olhando para o bairro inteiro.
Talvez aquela tenha sido uma das primeiras vezes em que contemplei, sem saber, a passagem do tempo.
Eu queria voltar para aquela tarde muitas vezes.
Não porque tudo fosse perfeito.
Mas porque eu ainda não sabia que um dia sentiria saudade dela.
E talvez seja justamente isso que torna certas lembranças tão difíceis de abandonar.
Quando vivemos uma tarde, pensamos que é apenas uma tarde.
Só muitos anos depois descobrimos que, sem perceber, estávamos vivendo uma das últimas vezes em que seríamos aquela pessoa.
