sexta-feira, 25 de setembro de 2026

O Menino que Olhava Para o céu.

 Eu nasci em Cachoeiro de Itapemirim, uma cidade quente do interior do Espírito Santo, cortada pelo rio Itapemirim. O rio atravessava a cidade como uma espécie de memória viva: suas águas barrentas cresciam depois de muitos dias de chuva e, às vezes, avançavam sobre o centro, como se a cidade precisasse se lembrar de que, antes das ruas, dos prédios e das pontes, havia ali um rio.

Tenho algumas lembranças que parecem pequenas quando contadas, mas que, olhando para trás, talvez tenham sido maiores do que eu imaginava.

Quando havia Copa do Mundo e o Brasil ganhava, a cidade parecia sair de si. As pessoas tomavam as ruas, os carros faziam carreatas, buzinas, bandeiras, gritos. Eu me lembro especialmente da avenida sobre o rio, da ponte tomada por carros e pessoas. Era como se, por algumas horas, todo mundo compartilhasse a mesma alegria.

Eu morava no bairro Aeroporto.

E não era apenas um nome.

Ali existia de fato um aeroporto. Para mim, aquilo fazia parte da paisagem da infância, assim como as ruas de terra, o calor, as casas, os barulhos da vizinhança e o céu enorme sobre nossas cabeças.

E havia um dia que parecia diferente de todos os outros: o 7 de Setembro.

Naquele dia, o céu ganhava outro significado.

Eu via os aviões da Esquadrilha da Fumaça fazendo suas acrobacias e ficava olhando para cima. Eles passavam cortando o céu, subindo, descendo, cruzando uns pelos outros, deixando atrás de si aqueles riscos brancos que pareciam desenhar alguma coisa que eu ainda não sabia nomear.

Havia fogos, festas, paraquedistas saltando do céu e fazendo acrobacias antes de chegar ao chão. Era um espetáculo que parecia grande demais para o lugar onde eu vivia.

Eu era apenas uma criança.

Minha realidade estava no chão.

Chão de terra batida. Calor. Poeira. As coisas simples e concretas da vida.

Mas havia alguma coisa dentro de mim que insistia em olhar para cima.

Eu desejava voar.

Talvez um dia pilotar um avião. Talvez saltar de paraquedas. Talvez simplesmente descobrir como seria estar lá em cima, olhando para tudo aquilo que, visto do chão, parecia tão grande.

Hoje percebo que talvez eu não desejasse apenas voar.

Talvez eu desejasse ultrapassar os limites daquilo que conhecia.

Porque uma criança não sabe explicar seus sonhos. Ela apenas os sente.

E talvez tenha sido assim comigo.

Enquanto os aviões passavam pelo céu, eu permanecia no chão olhando.

Eles tinham asas.

Eu ainda não.

Mas, de alguma maneira, cada vez que aqueles aviões cruzavam o céu de Cachoeiro, alguma coisa dentro de mim também saía do chão.

Minha realidade era a terra batida.

Minha infância estava ali.

Mas minha imaginação já havia aprendido a voar.

E talvez seja por isso que, tantos anos depois, eu ainda me lembre daqueles aviões.

Porque algumas coisas que vemos na infância não permanecem apenas na memória.

Elas permanecem dentro da gente.

E às vezes um menino que passa a infância olhando para o céu passa o resto da vida tentando descobrir para onde aquelas asas queriam levá-lo.